|

COLUNA DO RICCHETTI – Highway 74 – A estrada continua

HIGHWAY 74 — A ESTRADA CONTINUA

Hoje completo 74 anos.

Quando fiz 66, encontrei na famosa estrada Rota 66 uma maneira de olhar para minha própria caminhada. O número da estrada combinava com a idade, e aquela ideia de seguir viagem me pareceu uma boa tradução do que eu sentia.

Oito anos depois, chego à minha Highway 74.

Na Califórnia, essa outra estrada passa por paisagens que mudam, sobe montanhas, contorna curvas e oferece lugares onde vale a pena parar para olhar. Há deserto e há pinheiros. Há trechos em que o horizonte se abre e outros em que só conseguimos enxergar até a próxima curva.

Achei tudo isso muito familiar.

A vida também me trouxe até aqui por caminhos que nem sempre consegui prever. Em algumas curvas, encontrei alegrias que não estavam nos planos. Em outras, precisei diminuir a velocidade e segurar com mais força o volante.

Aos 66, escrevi que a velhice estava na cabeça. Aos 74, continuo acreditando na juventude da alma, embora o corpo tenha adquirido o hábito de participar da conversa.

O joelho dá sua opinião. A coluna pede consideração. E levantar de uma cadeira às vezes exige uma pequena reunião entre as partes.

Ainda assim, basta surgir uma ideia, uma viagem, uma história ou um encontro, e alguma coisa dentro de mim se levanta antes do corpo.

Então percebo que o menino continua aqui.

Talvez um pouco mais cuidadoso nas descidas, mas ainda curioso para saber o que existe do outro lado.

Naquela crônica, eu falava de prioridades. Hoje percebo que algumas delas se tornaram ainda mais simples: ter com quem tomar um café, ouvir a voz dos filhos, acompanhar as descobertas da minha filha, receber o abraço das netas, conversar com um amigo sem ficar olhando o relógio.

Há uma riqueza imensa em poder dizer “até amanhã” e acreditar que haverá outro encontro.

Também aprendi mais sobre a saudade.

Nos últimos tempos, a partida dos meus irmãos mudou a paisagem da minha estrada. Há lembranças que agora percorro sozinho. Histórias da infância que já não posso confirmar com uma ligação. E há uma falta muito particular de ouvir alguém me chamar de Zezinho.

Em certos dias, basta uma palavra para trazer de volta uma casa inteira.

Sigo levando comigo essas vozes. Às vezes, elas aparecem no meio de uma conversa. Outras, sentam-se ao meu lado enquanto escrevo.

Talvez seja por isso que a escrita tenha ocupado tanto espaço na minha vida. Depois de tantos anos entre projetos, empresas, compromissos e decisões, fui encontrando nas palavras uma maneira de acolher o que vivi e de abrir passagem para o que ainda posso imaginar.

Aos 74, continuo fazendo planos.

Tenho livros para terminar, histórias para contar, lugares para conhecer e pessoas para abraçar. Ainda me comovo com uma música, me distraio com a lua e posso perder um bom tempo olhando a chuva pela janela.

Tempo perdido?

Hoje tenho minhas dúvidas sobre o que realmente significa perder tempo.

Já atravessei dias inteiros cumprindo obrigações sem guardar deles uma única lembrança. E já vivi minutos tão pequenos que continuam comigo depois de décadas.

Um beijo. Uma gargalhada. Um café que esfriou porque a conversa estava boa.

Talvez a gente aprenda a reconhecer os melhores mirantes da vida quando deixa de passar tão depressa por eles.

O mundo continua apressado. As máquinas fazem cada vez mais coisas, as telas ocupam cada vez mais espaço, a inteligência artificial avança e eu continuo gostando de gente que olha nos olhos, de conversa que se demora e de carinho que não precisa de ocasião especial.

Também continuo querendo ajudar. Com mais discrição, talvez. Há uma satisfação tranquila em saber que alguma coisa ficou melhor porque passamos por ali.

Não cheguei aos 74 com todas as respostas. Algumas certezas antigas, inclusive, ficaram pelo caminho. Em compensação, aprendi a ouvir melhor, a escolher minhas brigas e a admitir que posso estar errado.

Nem sempre, é claro. Também seria pedir demais a um aniversariante.

Hoje olho para o retrovisor com gratidão. Reconheço os lugares por onde passei, os desvios que fiz e as pessoas que tornaram a viagem tão minha.

Depois volto os olhos para a frente.

Ainda há uma curva adiante.

Quero chegar até ela com saúde, curiosidade, amor e algum juízo — sem exagerar neste último, para não estragar a aventura.

Aos 66, eu queria saborear até o caroço daquela bacia de jabuticabas.

Aos 74, continuo querendo.

Mas agora puxo uma cadeira para perto, chamo quem amo e reparto a bacia.

A conversa vai longe.

E a estrada continua.

José Luiz Ricchetti — 08/10/2026

Posts Similares

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *