COLUNA DO RICCHETTI – Os Arquitetos da Sombra (ou ‘A arte de não ter caráter’)

(Crônica criada e escrita por José Luiz Ricchetti, cita texto de Trigueirinho e tem imagens editadas e ou geradas por IA)
Há pessoas que passam pela vida construindo pontes. Outras parecem dedicar sua existência a procurar rachaduras nas pontes que os demais construíram.
Não precisam necessariamente destruir uma obra. Basta convencer os outros de que ela está prestes a desabar. E, curiosamente, quase sempre encontram quem acredite.
Tenho observado, ao longo dos anos, um fenômeno inquietante do comportamento humano: a facilidade com que uma mentira, quando repetida com suficiente convicção, consegue colocar sob suspeita uma verdade construída durante uma vida inteira.
Não importa quanto alguém tenha trabalhado, quantas dificuldades tenha enfrentado ou quantas noites tenha perdido tentando resolver problemas que sequer eram seus. Às vezes, basta uma voz suficientemente insistente para que tudo isso seja esquecido.
E o mais surpreendente é que essa voz nem sempre precisa apresentar provas. Basta lançar dúvidas, insinuar intenções, distorcer acontecimentos e revestir suas palavras de uma suposta preocupação com o bem coletivo.
A mentira, quando bem-vestida, costuma frequentar ambientes onde a verdade entra de mangas arregaçadas.
Lembrei-me de uma reflexão de Trigueirinho, em ‘A Hora do Resgate’, na qual ele associa a mentira, a falsidade e o engano premeditado às chamadas forças degenerativas.
Não sei se precisamos recorrer ao mundo espiritual para compreender esse fenômeno. Talvez baste observar o comportamento humano.
Existem pessoas que parecem encontrar satisfação não naquilo que conseguem realizar, mas naquilo que conseguem impedir que os outros realizem.
Não apresentam soluções, mas colecionam objeções. Não constroem caminhos, mas fiscalizam os passos de quem caminha. Não assumem responsabilidades, mas se apresentam como guardiãs da moralidade, da justiça e dos interesses alheios.
E repetem seus títulos, suas posições e suas supostas atribuições como se a autoridade de uma palavra pudesse substituir a grandeza de uma atitude.
Esquecem-se de que caráter não é cargo. Honestidade não é discurso. E respeito não se conquista pela insistência com que alguém proclama suas próprias virtudes.
Mas existe algo ainda mais perturbador do que a falsidade deliberada.
É o silêncio daqueles que conhecem a verdade.
São os espectadores que acompanharam o esforço, testemunharam as dificuldades, usufruíram dos resultados e, no momento em que uma injustiça se apresenta, preferem olhar para o outro lado.
Talvez por comodidade. Talvez por receio de contrariar alguém. Talvez porque defender a verdade exija uma coragem que nem todos estão dispostos a demonstrar.
É nesse silêncio que a manipulação encontra seu maior aliado.
Uma pessoa pode semear a desconfiança, mas precisa de terreno fértil para que ela floresça. E poucas terras são tão férteis quanto a indiferença daqueles que preferem não se envolver.
O curioso é que a verdade costuma ser discreta.
Ela não grita pelos corredores, não organiza plateias, não precisa transformar cada conversa em um tribunal. Está presente nos fatos, nos resultados, nas dificuldades superadas e nas marcas deixadas pelo trabalho.
A mentira, ao contrário, precisa de movimento. Precisa circular, encontrar ouvidos, conquistar adeptos e renovar continuamente suas suspeitas.
Porque, quando o barulho termina, corre o risco de ficar sozinha diante dos fatos.
E há uma ironia nisso tudo.
Quem dedica a vida a procurar defeitos nas realizações alheias frequentemente não percebe o vazio das próprias realizações.
É como aquele sujeito que passa a tarde criticando a árvore porque algumas folhas caíram, enquanto descansa tranquilamente à sombra que ela oferece.
Não lhe ocorre agradecer pela sombra. Muito menos plantar outra árvore.
Prefere reclamar das folhas.
Durante muito tempo, acreditei que o trabalho bem-feito fosse suficiente para conquistar respeito. Que a dedicação encontrasse reconhecimento. Que a verdade, por sua própria natureza, acabasse prevalecendo.
Hoje compreendo que nem sempre é assim.
Há vitórias que chegam acompanhadas de um silêncio desconcertante. Há injustiças que deixam marcas mesmo depois de esclarecidas. E há pessoas que, embora contrariadas pelos fatos, jamais reconhecerão o equívoco de suas acusações.
Porque reconhecer um erro exige humildade. E a humildade é uma virtude difícil para quem construiu sua importância sobre a necessidade de diminuir os outros.
Mas também aprendi que não devemos permitir que a amargura dos outros determine aquilo que nos tornamos.
Seria uma segunda vitória da falsidade conseguir transformar uma pessoa generosa em alguém indiferente, ou fazer com que aquele que sempre construiu passasse a acreditar que nada vale a pena.
Talvez seja esse o verdadeiro desafio do discernimento de que nos fala Trigueirinho: reconhecer aquilo que nos ameaça sem permitir que a mesma escuridão encontre morada dentro de nós.
Não precisamos responder à mentira com outra mentira, nem à crueldade com crueldade. Precisamos apenas conservar a dignidade, esclarecer os fatos e saber a hora de deixar para trás aquilo que já não merece nossa energia.
Afinal, o tempo possui uma forma muito particular de fazer justiça.
Ele esquece os discursos inflamados, as pequenas intrigas, as vaidades passageiras e os personagens que confundiram protagonismo com importância.
Mas costuma preservar aquilo que foi construído.
As árvores continuam oferecendo sombra, mesmo depois que os críticos vão embora.
As pontes continuam permitindo travessias, mesmo para aqueles que duvidaram de sua resistência.
E as obras permanecem, silenciosas, testemunhando a passagem de quem as realizou.
Talvez, no fim, a maior diferença entre os seres humanos seja muito simples:
Há aqueles que deixam alguma coisa para o mundo. E há aqueles que passam a vida tentando impedir que os outros deixem.
Os primeiros nem sempre recebem aplausos.
Os segundos, às vezes, conseguem plateias.
Mas, quando as luzes se apagam e o silêncio retorna, cada um permanece diante daquilo que construiu — ou daquilo que tentou destruir.
E o tempo, que não costuma discutir com ninguém, encarrega-se de contar o resto da história.
José Luiz Ricchetti



