
Eu venho de um lugar que não se encontra no mapa. Um lugar desenhado com giz de infância e aquarelado com saudade. Um lugar onde o tempo anda devagar, para não assustar os passarinhos nem derrubar o cheiro do café recém passado.
Lá, as janelas vivem abertas como braços prontos para um abraço, e as portas rangem baixinho só para anunciar a chegada de quem a gente ama. Os quintais são vastos como o coração da vovó, e guardam segredos nas folhas de mamona e nas casquinhas secas do pé de jabuticaba.
Nesse lugar, o pão é dividido ainda quente, e a dor nunca é calada – ela é sentida em conjunto, chorada em silêncio respeitoso, e depois afagada com palavras simples que curam mais que qualquer remédio: “Tô aqui, viu?”.
De lá, de onde venho, até a tristeza tem hora marcada pra ir embora, porque não combina com o jeito das pessoas. Elas têm o dom de sorrir com os olhos e de falar com o toque. Ali, cada despedida vem com promessa de retorno – e mesmo quem parte, fica. Fica nas histórias contadas na beira do fogão, entre uma xícara de café e um punhado de lembrança boa.
Eu sou desse chão onde a infância corre solta, e a velhice é trono de sabedoria. Onde as crianças são anjos de pés descalços e os velhos são bibliotecas vivas. Onde cada amigo é irmão e cada irmão é colo.
Gosto de buscar as coisas boas. Não me alimento de notícia ruim nem me distraio com barulho de mundo. Prefiro o barulho da água na bica, do riso no terreiro, da viola na varanda. Procuro pelas belezas da vida com o mesmo cuidado de quem recolhe conchas na beira do mar – e guardo cada uma delas no bolso da alma.
Sei que talvez você duvide, até ache que esse lugar maravilhoso não existe. Mas, ó, ele tá aí. Bem aí. Dentro. Guardado do lado esquerdo do peito, onde mora a essência da nossa alma. É preciso apenas silenciar o tumulto, respirar fundo e permitir-se lembrar.
O mundo anda exigindo pressa demais, mas eu sigo devagar. Carrego comigo raminhos de afeto, flores de ternura, e um coração que nunca se esqueceu de onde veio. E se algum dia você se perder, me procura. Eu te levo de volta para esse lugar querido.
Porque quem aprende a buscar a beleza, nunca mais esquece o caminho de casa.
José Luiz Ricchetti